Fotografia, memória e resistência ambiental: Kitty Paranaguá fala sobre experiência ao participar do FestFoto

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Série Para Além da Flores, de Kity Paranaguá

Ao longo de suas edições, o FestFoto – Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre tem ampliado o debate sobre as relações entre imagem, território e meio ambiente. A fotografia, para além de seu papel documental, torna-se uma ferramenta de reflexão sobre as transformações provocadas pela ação humana no planeta, revelando impactos ambientais, mudanças nas paisagens e as diferentes formas de interação entre sociedade e natureza. Por meio de exposições, debates e encontros com artistas, o festival tem criado espaços para que a fotografia contribua na construção de novos olhares sobre as questões ambientais contemporâneas. 

Na edição de 2025, o FestFoto trouxe a árvore como elemento central de reflexão da sua convocatória e da exposição coletiva “Fotograma Livre”. A partir desse tema, fotógrafos e fotógrafas de diferentes partes do Brasil foram convidados a pensar a árvore não apenas como parte da paisagem, mas como um organismo vivo, sensível e fundamental para o equilíbrio do planeta. Uma das finalistas da convocatória do ano passado foi a jornalista, artista e fotógrafa carioca Kitty Paranaguá, que apresentou na exposição o trabalho Para Além das Flores. Ao relembrar sua participação no FestFoto, Kitty destaca a importância do festival como espaço de encontro, circulação e valorização de diferentes trajetórias artísticas. 

“Participar de festivais significa ampliar horizontes, estabelecer novas conexões e conquistar visibilidade nacional e internacional. O FestFoto, por meio do Fotograma Livre, cria um espaço importante para novos ensaios, colocando em diálogo o trabalho de jovens fotógrafas e fotógrafos com o de autores já consagrados. No ano passado, tive o privilégio de participar com o ensaio Para Além das Flores, um projeto que desenvolvo há algum tempo sobre a vida noturna da floresta”, explica.

Para Kitty, a presença do debate ambiental no FestFoto não se limita às exposições apresentadas pelo festival, mas também está relacionada à forma como a fotografia ocupa espaços e se conecta com as experiências coletivas de uma cidade. A artista destaca como essas escolhas podem ampliar o alcance das discussões propostas pelas imagens e aproximar o público de questões que fazem parte da realidade contemporânea.

“O FestFoto mantém, desde sua criação, um compromisso permanente com as questões ambientais — uma reflexão que hoje se torna cada vez mais urgente e necessária. A iniciativa de levar para a Praça da Alfândega a exposição do ano passado, cujo tema foi Árvore e Meio Ambiente, teve um significado especial. A praça, que ficou submersa durante a grande enchente de Porto Alegre, tornou-se um símbolo da vulnerabilidade das cidades diante das mudanças climáticas. Ao ocupar esse espaço público, o festival valorizou sua importância histórica e afetiva, prestigiou a população local e convidou todos a refletirem sobre essa realidade.”

Ao abordar a temática da edição deste ano, Kitty destaca a continuidade de uma reflexão que acompanha o FestFoto em sua trajetória: o papel da fotografia como ferramenta de sensibilização diante dos desafios ambientais do presente. A partir dessa perspectiva, o festival propõe um espaço de diálogo sobre as relações entre sociedade, natureza e os caminhos que estão sendo construídos para o futuro dos territórios.

“A temática deste ano, C.U.R.A., amplia uma discussão que o festival vem propondo há algum tempo. Em um momento em que governos, como os do Rio de Janeiro, São Paulo e de tantas outras cidades, demonstram maior interesse em privatizar espaços públicos, derrubar árvores e erguer espigões, evidencia-se a falta de respeito pelo que resta das nossas florestas e a ausência de um compromisso efetivo com sua preservação. O lucro continua sendo colocado acima da vida. Na contramão desse modelo, muitos festivais de fotografia vêm assumindo um papel fundamental ao promover debates sobre as questões ambientais, ampliar a visibilidade da fotografia brasileira e incentivar o engajamento dos fotógrafos com os desafios do mundo contemporâneo.”

Ao concluir sua reflexão, Kitty reforça a importância de compreender a fotografia não apenas como uma forma de representação, mas como uma prática capaz de estabelecer conexões, provocar debates e ampliar a percepção sobre os desafios que envolvem o futuro do planeta. Para ela, a imagem também carrega a responsabilidade de participar da construção de novos olhares e atitudes diante das questões ambientais.

“Mais do que nunca, precisamos unir forças, fortalecer redes, tornar essas questões visíveis e assumir um compromisso coletivo com a preservação da vida e dos nossos ecossistemas. A fotografia é memória, denúncia e resistência. Ela nos permite sensibilizar, mobilizar e transformar. Que possamos seguir juntos, usando a imagem como uma força capaz de inspirar mudanças e enfrentar a destruição do planeta.”