FestFoto Descentralizado 2025 conta com presença de Mariane Rotter: “Descentralizar a cultura é muito importante”

A edição de 2025 do FestFoto Descentralizado trouxe algumas novidades. Uma delas é a presença da fotógrafa, artista visual e professora Mariane Rotter. Atuante há 14 anos como professora de Artes Visuais da Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (UERGS) e doutora em Artes Visuais pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela integra a equipe de educadores que  anima as oficinas nesta edição descentralizada do FestFoto. 

Com uma sólida trajetória acadêmica e profissional no cenário da arte gaúcha, Mariane dirige o para a intersecção entre arte e vida, sua produção se destaca pela abordagem poética e crítica do cotidiano.

Sua prática artística é marcada pelo projeto de longa duração “Meu ponto de vista”, iniciado em 2002. Nele, a artista fotografa o seu cotidiano a um metro e trinta do chão, uma perspectiva singular que desafia o olhar do observador. Esse trabalho foi tema da exposição “Meu ponto de vista: check-in”, que evidencia a força de sua sensibilidade para provocar reflexões sobre o mundo ao nosso redor.

A professora possui uma vasta experiência com fotografia com o foco em levar cultura para lugares menos favorecidos. Para ela, a descentralização é muito relevante. Por um período de sua vida, Mariane ministrou atividades de fotografia pinhole pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, dentro do programa de descentralização da cultura, atuando em bairros como Cristal e Bom Jesus. 

No FestFoto Descentralizado 2025, Mariane está coordenando as oficinas de fotografia pinhole com professores e alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Morro da Cruz, localizada na comunidade do Morro da Cruz, zona leste de Porto Alegre. No dia 16 de agosto, ela participou da primeira oficina, capacitando educadores da escola. Nos dias 20 e 26 ela teve contato pela primeira vez estudantes da instituição e com muita alegria e entusiasmo mostrou a eles à magia da imagem feita através de latas. A professora ainda participará de uma última oficina com outros alunos da escola no dia 11 de setembro. 

Conversa com Mariane Rotter 

1 – Qual a sua expectativa para as oficinas? 

Mariane: Para mim são sempre as melhores, né? Sempre desejando plantar a sementinha da fotografia pinhole em mais pessoas. É legal atuar com aluno, professor, gente da escola, porque os alunos ainda estão em formação e têm muito a decidir sobre suas vidas. E às vezes o que a gente faz na oficina, de alguma maneira, acrescenta na formação dessas pessoas, em relação à fotografia, às técnicas, ao olhar. É começar a sensibilizar o olhar pra a vida, pra arte, pro mundo. Porque a oficina, como a gente tem falado, mostra que a fotografia digital no celular é tão automática que já não pensamos mais: simplesmente fotografamos ou capturamos imagens. E, muitas vezes, essas imagens não são nem revistas, nem vistas, para saber se ficaram boas esteticamente, se as pessoas estão piscando ou não, fazendo careta. Simplesmente capta a imagem sem sentido e  gera muita imagem que, no fim das contas, não terá utilidade. Já a fotografia pinhole é parar o tempo. É observar se tem sol, se tem sombra, se vai chover, se tem vento, onde apoiar a lata para que não trema e a foto fique boa. Então, acho que é isso. A expectativa é sempre a melhor para ver o que vamos atingir.

2 – O FestFoto começou em 2024 e está indo para a sua segunda edição. Como você avalia sua participação no trabalho no Descentralizado?

Mariane: Fico muito feliz e honrada por participar do projeto Descentralizado do FestFoto. Eu acompanho o FestFoto há muito tempo, né? Primeiro como aluna da graduação, depois como artista visual que utiliza a fotografia para produzir seus trabalhos artísticos. Sempre visito e participo dos eventos, falas e outras atividades. Como comentei antes, descentralizar a cultura é muito importante. É importante tirar do centro e levar para outros bairros, fazer esse diálogo, depois trazer as pessoas para circular também, não só a arte, mas as pessoas. Então, eu me sinto muito honrada. 

3 – Como tem sido a sua experiência nas oficinas de fotografia em escolas? 

Mariane: De certa maneira, é a primeira vez que desenvolvo essas atividades diretamente em uma escola, com uma turma específica. Nas outras vezes que ministrei oficinas pela descentralização da Prefeitura de Porto Alegre, eram atividades em centros comunitários. Lá no Cristal, por exemplo, havia grupos de crianças e adolescentes em uma atividade extracurricular. Não era dentro da escola, com professores e alunos. Então, de alguma forma, esta é a primeira vez em escola. Acho muito legal, porque a criança é muito espontânea, sempre curiosa. Acredito que consigamos instigar e deixá-las bem animadas para participar.

4 – A fotografia pinhole exige um olhar mais atento e um processo mais artesanal. O que você espera que os alunos descubram ou sintam ao vivenciar essa experiência?

Mariane: A fotografia pinhole, por ser uma técnica artesanal, manual e contemplativa, exige que as pessoas se coloquem em um tempo diferente, um tempo de observar. Como disse antes, a fotografia digital é feita em segundos e muitas vezes nem voltamos a olhar o arquivo. Já a pinhole exige aprender a olhar: onde acomodar a câmera, observar se está sol, nublado, se vai chover. Depois vem a parte química do laboratório que também faz parte da oficina. Após capturar a imagem, vamos ao laboratório, que foi improvisado na escola — um banheiro totalmente vedado, com luz vermelha, como se vê em filmes. Isso instiga muito. E ainda tem o processo da revelação: revelação, interrupção, fixação. Não é só o tempo da foto sendo capturada, mas também o tempo da imagem aparecendo diante dos olhos. Espero que até os mais ansiosos consigam desacelerar e entrar no clima.

5 – Qual a importância de trazer técnicas alternativas como o pinhole, para comunidades periféricas e escolas públicas? 

Mariane: A importância está em oportunizar a essas pessoas o conhecimento da história da fotografia. Mostrar que o jeito como captamos imagens hoje não foi sempre assim. O pinhole é, de certo modo, o início: uma câmera escura com material sensibilizado, captando a cena em frente. Também é importante porque hoje, com o quase desaparecimento da fotografia analógica, os materiais se tornaram muito caros e inacessíveis. Esse projeto, viabilizado por lei de incentivo, cria a oportunidade de manipular esses materiais — que, de outra forma, seriam impossíveis de acessar. E, quem sabe, pode despertar entre os participantes o desejo de trabalhar com imagem, cinema ou artes.

6 – Além da parte técnica, que mensagem ou reflexão você espera transmitir aos alunos por meio da oficina? 

Mariane: Para mim, a principal mensagem é se propor a estar em um tempo outro: mais lento, mais vagaroso, de observação. Observar a poesia da luz e da sombra. Ver se o pátio está ensolarado, se sob o corredor está nublado, perceber o que ficou preto, o que ficou branco, e por quê. Estamos em um período de inverno, em que no mesmo dia há sol e nuvens. A fotografia pinhole nos coloca nesse estado de contemplação.

7 – Se você pudesse definir um objetivo final para as oficinas — algo que, ao alcançar, te fizesse sentir que a missão foi cumprida — qual seria?

Mariane: De maneira prática, poderíamos dizer que o objetivo seria que todos saíssem com uma boa foto. Mas nem todo mundo vai conseguir a “boa foto” — e o que seria uma boa foto, afinal? Acredito que o verdadeiro sucesso é a satisfação dos participantes, o interesse, a curiosidade. Ver se as crianças do sexto ano vão se envolver. Mesmo que nem todos consigam uma boa foto, espero que sejam instigados, fiquem curiosos, interessados e satisfeitos.

O FestFoto Descentralizado é uma realização da Funarte, Ministério da Cultura / Governo Federal. Produção: Brasil Imagem. Apoio cultural: Agência Compromisso e UERGS. Parceria: Coletivo Autônomo Morro da Cruz e Centro de Educação Ambiental (CEA). O FestFoto 2025 contará com audiodescrição, intérprete de Libras e leitura ampliada. 

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