O ano de 2024 marcou um novo capítulo na história do FestFoto. Em meio às dores causadas pela tragédia climática que devastou o Rio Grande do Sul no primeiro semestre, o festival internacional de fotografia seguiu em frente com firmeza e sensibilidade. Em vez de recuar, o FestFoto escolheu resistir. E mais do que resistir, decidiu se reinventar, transformando a adversidade em oportunidade de aproximação e escuta.
Foi nesse contexto que nasceu o FestFoto Descentralizado, uma iniciativa inédita que levou pela primeira vez a potência do festival para além do centro de Porto Alegre. A fotografia, que tantas vezes se restringe a galerias e espaços formais, encontrou novo sentido ao percorrer as ruas e vielas das periferias da capital gaúcha.
Dois territórios foram escolhidos para receber essa primeira edição descentralizada: o Morro da Cruz, pertencente à Vila São José, e o bairro Bom Jesus. Durante junho, julho e agosto, os dois territórios receberam atividades que envolveram, em sua maioria, participantes de duas importantes instituições: a ONG Coletivo Autônomo Morro da Cruz e o Centro de Educação Ambiental (CEA).
Atividades que aconteceram no FestFoto Descentralizado

A primeira atividade proposta pelo FestFoto Descentralizado foi a oficina de pinhole. Em junho, o festival promoveu oficinas de pinhole envolvendo crianças do projeto Integração Social, da ONG Coletivo Autônomo Morro da Cruz, e trabalhadoras do galpão de reciclagem do Centro de Educação Ambiental. A oficina foi conduzida pelo projeto Click da Kombi, do fotojornalista Jorge Aguiar. Crianças e adultos mergulharam no processo analógico, aprendendo como luz, tempo e paciência transformam uma ideia em fotografia.
Durante julho e agosto aconteceram três grandes oficinas, sendo duas de fotografia e uma envolvendo escrita criativa. As duas oficinas de fotografia foram ministradas pelo professor e fotógrafo Tiago Coelho, e tinham o objetivo de ensinar a prática fotográfica utilizando o celular como ferramenta para contar histórias das comunidades através de imagens. Foram três dias de oficinas em cada território, incluindo teoria e prática, resultando na exposição [Re] tratando histórias, que aconteceu em formato lambe-lambe nas ruas das comunidades no dia 24 de agosto.
Além da mostra [Re] tratando histórias, o dia também contou com outras atividades na Bom Jesus. Uma delas foi a exposição Marli, do artista visual Erick Peres, que apresentou a trajetória da líder comunitária e fundadora do CEA, Marli Medeiros. A mostra aconteceu na sede do CEA. O encerramento do evento ficou por conta da emocionante apresentação de slam Imagens que Falam, realizada na Praça dos Anjos. A proposta foi potente e sensível: enquanto as fotografias feitas pelos alunos eram projetadas em um outdoor, os slammers se revezavam para declamar poesias inspiradas nas imagens exibidas.

A oficina de escrita criativa foi realizada na Bom Jesus com ensinamentos da artista e slammer Mikaa, que mostrou como montar estruturas de poemas e também como fazer rimas, usando a palavra para contar as histórias das comunidades. Participantes das oficinas do FestFoto Descentralizado também marcaram presença na abertura da FestFoto na Fundação Iberê Camargo, no dia 17 de agosto. Para muitos dos alunos, essa foi a primeira experiência em uma exposição de fotografia e também a primeira visita ao Iberê, um dos principais espaços culturais da cidade.
O FestFoto Descentralizado se consolidou como um importante festival que contribuiu significativamente para a inclusão cultural em Porto Alegre. Ao levar arte e formação para territórios historicamente afastados das grandes programações culturais, o projeto promoveu o acesso à fotografia e reafirmou a potência da cultura nas periferias como ferramenta de expressão, identidade e transformação social.
Mais informações sobre o festival e as ações do FestFoto Descentralizado podem ser acompanhadas nas redes sociais oficiais do evento.