Ao final de setembro, o Morro da Cruz se tornou cenário de um encontro entre fotografia e poesia. Entre rimas, versos e muita criatividade, os alunos da oficina de fotografia do FestFoto Descentralizado deram um novo significado às imagens que haviam produzido, participando da oficina de escrita criativa Palavra Revelada – Narrativas do Morro. O resultado foi um mosaico de olhares, palavras e afetos que agora habitam as paredes da comunidade.
Conduzidos pelos poetas e educadores Agnes Mariá, Felipe Deds e Mikaa, os jovens mergulharam em dois encontros dedicados à arte da palavra. Com delicadeza e entusiasmo, os três guiaram o grupo passo a passo — da concepção de uma ideia poética até o momento íntimo de construir cada rima, moldando sentimentos em versos.
O primeiro encontro, no dia 25 de setembro, foi um convite à experimentação. Em uma das atividades, cada participante escolheu um objeto qualquer e, a partir dele, começou a escrever, descobrindo a própria voz poética. Na sequência, veio o exercício mais simbólico: escolher uma das fotografias feitas durante a oficina de fotografia no Morro da Cruz e criar, a partir dessa imagem, uma poesia que traduzisse o olhar e a emoção daquele registro. Durante quatro intensas horas, entre conversas, orientações e risadas, Agnes, Felipe e Mikaa compartilharam generosamente suas experiências e inspirações. O resultado foi uma coleção de poemas belíssimos, nascidos das imagens e das vivências de cada aluno.

Mundo a tua outra face
oferece a esperança
que é bem diferente
do que me ensinaram.
Mundo dentro do teu lago me afogo,
me esqueço de todas as vezes
que me intimidaram.
Parece tranquilo aqui fora,
só mundo ao contrário:
deixa eu respirar.
Dá medo esse espelho do espaço,
da ânsia,
da vontade de recomeçar.
Tranquilo é quem vive no topo,
comida na mesa,
impossível faltar.
Enquanto preocupada com o sustento,
a pobre gente não tem tempo
para descansar.
Mesmo esforçada,
mesmo insistente,
a gente aqui embaixo
não chega até lá.
Perante tanta pobreza,
o mundo aqui fora
só faz desprezar.
Talvez, na outra realidade,
o mundo seja mais justo,
bom de se morar.
Talvez, na outra realidade,
floresça igualdade
e não falte alegria
para o povo esbanjar.
Poesia feita pela aluna Ana Júlia.
O segundo encontro, realizado no dia 29, marcou o encerramento da oficina com duas atividades especiais. Logo no início, os participantes conheceram o Coletivo Frete Grátis Norte, vindo de Roraima para participar do FestFoto. O grupo realizou no Morro da Cruz uma ação que culminou em uma delicada exposição no formato lambe, hoje instalada nas paredes da sede do Coletivo Autônomo Morro da Cruz.

A proposta do Frete Grátis Norte foi simples e potente. Cada aluno precisou condensar o poema criado no primeiro dia em uma única palavra — ou, no máximo, uma ou duas frases. A partir disso, aprenderam a desenvolver uma tipografia própria e a escrever suas criações sobre papel branco, dando forma visual à sua expressão. Em seguida, aplicaram essas palavras e tipografias sobre as fotografias que haviam escolhido para seus poemas. O resultado final — fotos e textos colados nas paredes da sede no formato lambe — transformou o espaço, criando uma nova paisagem poética no coração do Morro.
Entre essas atividades, aconteceu também um sarau aberto, onde cada aluno teve a chance de declamar sua poesia. As vozes de Agnes Mariá, Felipe Deds e Mikaa também se uniram às dos jovens, enchendo o ambiente de ritmo e emoção. No encerramento, palavra e imagem se encontraram — e, juntas, revelaram o poder transformador da arte.
O FestFoto Descentralizado é uma realização da Funarte e do Ministério da Cultura / Governo Federal. Produção: Brasil Imagem. Apoio cultural: Agência Compromisso e UERGS. Parceria: Coletivo Autônomo Morro da Cruz e Centro de Educação Ambiental (CEA). O FestFoto 2025 contará ainda com audiodescrição, intérprete de Libras e leitura ampliada. As atividades podem ser acompanhadas pelas redes sociais do festival.













